Depois voltámos às curvas e à maravilhosa estrada panorâmica do Ceira. Vai-se bem alto por ali, sempre pela encosta com algumas eólicas gigantes a espreitar por cima das nossas cabeças. E que dia fantástico para passear de mota, nesta região que sempre me encanta quando por ela passo. E faço aqui um interregno para dizer que nem sempre assim foi. A minha família é oriunda da região e há 25 anos atrás estas terras não estavam preparadas como estão hoje. Recordo-me bem o martírio que era a travessia da serra da Lousã. Estradas medonhas, empoleiradas no topo de ravinas, com curvas sem fim pelo meio da serra. Esta região sempre foi muito esquecida, provavelmente pela sua situação geográfica que contribuiu ao seu isolamento. Região pobre, que ao longo de muitos anos viu os mais jovens saírem para o exterior à procura de melhor futuro.
O progresso chega a todo o lado. A alguns locais mais tarde que outros, e aqui chegou tarde, mas felizmente chegou. Há já alguns anos que os municípios têm dedicado seriamente parte das suas verbas à evolução dos seus concelhos.
De há uns anos para cá os municípios têm dedicado a sua atenção ao turismo, valorizando o que têm de melhor e único. Uma modernização dos concelhos no sentido de tornar a região mais atractiva e confortável. Obra de grande mérito que consegue criar um progresso consistente e sadio que não abala a genuinidade dos locais, que acaba por ser o maior atractivo destes lugares.
A aldeia do Piódão será porventura o melhor exemplo do que escrevi acima. Há 20 ou 30 anos só aqui chegar era um pesadelo. O acesso era feito por caminho de cabra vale abaixo. Lá chegar em Inverno rigoroso era por vezes só possível a pé. As referências históricas ao Piódão retratam-no sempre como local de refúgio ou isolamento.
A verdade é que esta povoação isolada do mundo, tem origem em pessoas humildes que aqui viviam com dificuldades uma vida simples em comunidade de entreajuda.
Enfiado num vale no limite da Serra do Açor, o aglomerado de casas que constitui a povoação encanta assim que se vê da estrada.

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)
Com construção exclusiva em xisto e telhado de lousa, um pormenor salta logo à vista, as portas e janelas pintadas de azul. A explicação não é exacta. Dizem os mais velhos que pelo seu isolamento a primeira e única lata de tinta a aqui chegar terá sido dessa cor. Assim sendo e não havendo mais escolhas, o azul impôs-se.

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)
Aqui chegados estacionámos as sete motas na única praça da aldeia, muito concorrida neste dia de Sol.

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)
Fomos à procura de almoço, a hora assim o impunha. Meio-dia e meia, a verdade é que também não seria muito tarde, mas estava difícil em arranjar local para comer.
As opções por aqui não são muitas, e hoje estava especialmente concorrido. Lá reservámos uma mesa. Teríamos de aguardar uns três quartos de hora. Nada e grave o suficiente para tirar umas fotos às imediações.

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)
Situadas numa encosta íngreme, as casas tiveram de se adaptar ao terreno, o que originou as construções encavalitadas em redor de ruas labirínticas e estreitas.

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)
Diz o povo que o nome vem de “pior do mundo”, quando um fora-da-lei se aqui refugiou e enviou notícias à família identificando o sítio com essa designação. Esta história poderá ter algum fundo de verdade, uma vez que ao longo da história o Piódão foi por várias vezes refúgio de de temíveis bandidos e assassinos –
Diogo Lopes Pacheco (assassino de D. Inês de Castro),
João Brandão,
José do Telhado, o bando dos Garranos (ou quadrilha do Caca) que por aqui circulava, e o brutal Oliveira Matos (ou Oliveirão) morto pelos populares em Chãs d’Égua e enterrado nas traseiras da capela.

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)

O Piódão foi classificado imóvel de interesse público em 1978, defendido desde 1974 pelo arquitecto Eugénio Correia aqui com uma rua a si dedicada.

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)
E venha o almoço. Uma bela feijoada para mim se faz favor.

Rota do Açor - Aldeias de Xisto (16MAR2014)
Não sendo do outro mundo, estava bem boa. Assim como a tigelada que se lhe seguiu.
Cafezito para rematar e seguimos nas calmas de volta às motos.
continua...