Depois de ter ido buscar a inglesa (Triumph Tiger 800XC ABS) na passada quarta-feira, tinha cerca de 30kms carregados no odómetro.
Estava na altura de mostrar à bifa, o tipo de vida que lhe esperava, não se fosse ela começar a habituar-se a viagens de apenas dezenas de quilómetros.
Andei uns dias a pensar em itinerários, com pouca ou nenhuma AE (a rodagem obriga), e com um traçado agradável com um ou outro troço de curvas.
Lembrei-me de várias opções, quase todas a Sul do Tejo. Finalmente consultando o mapa despertou-me um local, onde ainda não estivera antes.
O caminho para lá também estava a gosto, e reunia os predicados necessários para uma viagem de estreia. Boa estrada, pouco trânsito, belas paisagens e algumas curvas divertidas.
Assim apontei a mira para Cedillo (ou Cedilho)... Antes do contexto geográfico, o enquadramento histórico.
Trata-se de um território espanhol com forte presença da língua portuguesa, o seu nome parece derivar da palavra "cedido", por terem sido estas terras cedidas pela coróa Portuguesa a Espanha.
O português foi até meados do século XIX a língua quotidiana em Cedilho, altura em que começou a desaparecer. Hoje em dia apenas as pessoas de sessenta e mais anos falam em português, as novas gerações estudam português na escola, como língua estrangeira.
Ainda assim as raízes portuguesas continuam vivas, sendo os padroeiros do território Santo António e a Virgem de Fátima.
Cedilho, tem uma barragem do mesmo nome, que tem esta curiosa particularidade de ser a porta de Portugal por entra o Tejo. Aí também se junta ao majestuoso rio, um dos seus afluentes, o rio Sever.
Feito, o caminho para lá seria feito sempre ladeando a margem Sul do Tejo, passando por todos aqueles vilarejos ribatejanos, coisa que muito me agrada.
Se há de facto percurso à beira de Lisboa que não se dever perder, é o Ribatejo. Quer pela margem Norte, quer pela margem Sul, vale o passeio, a cada quilómetro que se faz.
Sempre por nacionais até ao limite do território, com passagem pelo Tramagal e suas fabulosas curvas, para sentir a eficácia e agilidade das "garras" do Tigre.
Irei aproveitar nesta crónica por tecer alguns comentários à nova montada, será a primeira meia milena que farei ao seu comando, e portanto também as primeiras impressões.
Usarei por base de comparação a experiência de 3 anos e 34.000kms que tive com a anterior mota, a fabulosa Suzuki DL650A VStrom. Devo dizer que a comparação é injusta, reconheço, são máquinas diferentes, de características diferentes e tempos diferentes, não pretendo dizer que uma é melhor ou pior que a outra, apenas o que encontrei de diferente entre elas, sem menosprezar nenhuma, como disse a VStrom cumpriu o seu serviço com 20 valores em todos os capítulos.
10h00, e já tinha o equipamento aprumado e os "pertences" necessários carregados no dorso do Tigre. Carrego no botãozinho de arranque e começo a ouvir o rugir do "animal".
E que rugir... Fenomenal... O assobio persistente, deixa-nos convencidos que há por ali algum turbocompressor dissimulado. Um dia inteiro a ouvir esta sinfonia... Ui que chato.
Faço-me à estrada, em direcção à Vasco da Gama, quando lá chego sou brindado com uma densa neblina. Nada de grave, apenas o suficiente para benzer o felino.
Uma manhã fresquinha, à qual o casaco de Verão não ajuda. Só depois de passar Porto Alto é que o tempo desanuviou, e só depois de Benavente o ar aqueceu.
Fui passando pelas localidades sem parar, estava a curtir a estrada e sobretudo a máquina (e o seu roncar...). A estas velocidades o conforto é um luxo. A posição em relação à Strom, é ligeiramente mais debruçada sobre o guiador, um pouco mais agressiva sem prejudicar em nada o conforto. Como estamos mais perto do volante, é fácil cair, envolver e encaixar sobre o depósito, como por exemplo num arranque mais enérgico ou numa curva a pique mais fechada.
O guiador é significativamente mais largo, e nunca me tinha apercebido a diferença que isso pode fazer. Os cotovelos estão praticamente a 90º, ficando os braços totalmente descontraídos. Com as mãos tão afastadas é fácil fazê-la balancear, isto acrescido à leveza da direcção, faz com que a Tiger tenha uma agilidade exemplar. Na Strom as mudanças de direcção faziam-se facilmente (com os pneumáticos certos!), mas a sensação do peso a baloiçar sentia-se, algo gritante numa situação de curva e contra-curva por exemplo, que executada de forma violenta, obrigava literalmente a "segurar o barco".
Em Alpiarça, fiz uma paragem junto à barragem, para degustar um café acompanhado da especialidade da região. Não conheço todos os recantos onde se podem provar pampilhos de qualidade, e suponho que os melhores se encontrem em Santarém, mas este café junto à barragem, serve para mim, os melhores pampilhos que alguma vez provei.

Passeio de estreia (aka À procura da "cedilha" espanhola)

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Depois resolvi improvisar e dar uma voltinha à barragem. Estava por ali a decorrer um concurso de pesca desportiva, algo de topo, verdadeiramente profissional a julgar pelo equipamento e acessórios que o pessoal exibia.
E já se estava a ver que tinha de ir cheirar um pouco a terra... Assim fui com a bifa até uma das margens da barragem. Fui com cautela, não queria borrar a pintura (literalmente!), e eis que surge no meu caminho o pior... areia. Mas lá fui.

Passeio de estreia (aka À procura da "cedilha" espanhola)

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Não deu para apreciar grande coisa, apenas sentir um pouco do DNA pisteiro da inglesa. A leveza que se sente cá em cima dá-nos de facto outra confiança, isto promete.
Siga caminho que ainda falta.
Próxima paragem no mandatório miradouro de Almourol, que curiosamente se encontrava totalmente deserto. Algo me diz que aquele café que por ali está não volta a abrir portas.

Passeio de estreia (aka À procura da "cedilha" espanhola)

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A minha Top-case:

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Dupla dinâmica:

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Jesus!

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Depois das chapas, estrada de novo.

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Mais um pouco e chegava ao troço do Tramagal, um delicioso desencadear de curvas com o Tejo em pano de fundo. Ora aí está um percurso perfeito para fazer rodagem, com muita passagem de caixa.
Sem automóveis pela frente, e apenas com um atrás de mim, rapidamente deixei de o ver no espelho. Jesus, que diversão!... Simplesmente excelente. Tinha ideia que a roda 21' pudesse complicar a vida em estradas serranas... nada mesmo!
Todo o conjunto faz-nos esquecer disso. O volante largo e leve, a posição avançada, a travagem apurada, a disponibilidade do motor e a suavidade da caixa, tornam o percurso do Tramagal uma verdadeira brincadeira... muito divertida!
Quando dei por mim estava debruçado sobre depósito atrás do vidro, a curtir que nem um perdido. Acho que nunca passei por ali com a Strom de forma tão lançada... Que regalo. Quando cheguei a Abrantes ia-me a rir sozinho...
De Abrantes, seguiria para Nisa, afastando-me do Rio e entrando pelo Alto Alentejo. Grandes rectas encontrei, ao puro estilo americano, daquelas que não se vê o inicio, nem o fim, só faltou mesmo o deserto como cenário.

Passeio de estreia (aka À procura da "cedilha" espanhola)

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Muito calor, qualquer coisa acima dos 30ºC. E calor é coisa presente no Tigre. O triplo trabalha quente (em poucos segundos atinge 2 ou 3 traços no computador de bordo) e a construção da máquina, desprovida de qualquer carenagem faz com o calor emanado pelo bloco se espalhe atrás.
É algo que se nota claramente abaixo do 50km/h nas pernas e em dias quentes, como são os que temos tidos. Acima dos 50, o calor continua a circular em direcção às pernas, mas deixa de incomodar, ficando ao nível de temperatura da japonesa. O sistema de refrigeração cumpre o seu serviço, tal qual a Suzuki o nível de temperatura do sistema fica-se ligeiramente abaixo de meio e por lá continua, sem variações.
Chegada a Nisa e uma breve paragem, para reabastecer líquidos e alinhar o GPS. Comecei a reparar que o sacana do aparelho não me encontrava rota para Cedilho, a não ser fazendo um desvio de 100 e muitos quilómetros.
Achei que não fazia sentido, pelo que apontei o destino até ao lugar de Montalvão. Ficava próximo de Espanha, com certeza haveria por ali caminho para lá chegar.

Passeio de estreia (aka À procura da "cedilha" espanhola)

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Passei por Montalvão de fugida, parando apenas para confirmar que de facto o caminho seria por ali.

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E felizmente era...

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Daí a pouco estava a chegar à barragem, que faz fronteira entre os dois países.
Passei por ela, e parei a meio num local que me pareceu de ser para estacionamento. Tinha eu acabado de tirar o "cabaço" , quando me aparece um espanhol gordo, de camisa aberta a dizer para "me montar na mota e seguir, que não se podia parar por ali". No meu melhor portunhol, pedi-lhe desculpa, ao que ele me respondeu "tranquilo". Bom, fotos só de longe então.

Passeio de estreia (aka À procura da "cedilha" espanhola)

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E estava em Espanha, já muito perto do destino (cerca de 6km)

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Ora cá está um mapa do local:

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Onde o Sever encontra o Tejo:

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Barragem vista de mais alto:

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E cá vamos nós para Cedilho:

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Ah... Cedilho... check!

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Chegado a Cedilho, não há por lá verdadeiramente nada de especial, trata-se de um vilarejo típico espanhol com algum património histórico bem cuidado.
Parei junto à igreja de Santo António de Pádua, para tirar umas chapas.

Passeio de estreia (aka À procura da "cedilha" espanhola)


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Não me demorei por lá, não me estava a apetecer cruzar com la "Guardia Civil" e ter uma discussão sobre um "P" que me faltava.
No regresso, fazendo o caminho inverso até à barragem, ainda em território espanhol reparei na sinalização de um "embarcadero", fiz o desvio, pareceu-me um lugar bom para mais uns retratos.
Perfeito:

Passeio de estreia (aka À procura da "cedilha" espanhola)

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Olha que dois:

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O Tejo, ou melhor "Tajo":

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E volta para trás, até casa. Tinha feito 260 e picos quilómetros até aqui, faltaria portanto outro tanto para baixo.
Para não regressar pelo mesmo caminho, depois de Nisa, desviei para Ponte de Sôr, voltando mais a Sul.
Depois de atestar em Ponte de Sôr, o computador afixava uma autonomia de 388 quilómetros... Nada mau!
Última paragem em Montargil, para apreciar as águas calmas da barragem.

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Alguns detalhes do Tigre.

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Linda!...
Mais uns quilómetros até Lisboa. Já estava bem fresquinho, e ao passar a Vasco da Gama, com o Sol a sumir, ia batendo o dente.
Os números, depois de chegar a casa:

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Uma viagem inaugural memorável, em solo ride, que também sabe bem.
Últimas palavras para a experiência com a nova máquina... Simplesmente divinal, e isto ainda limitado a regimes abaixo dos 5000rpm... Falta ainda lhe avaliar a "alma".
Para além do que já referi, sente-se que é uma máquina pensada em muitos detalhes. Não sendo um produto para grandes massas, não tenho dúvidas que para o que é, e ao preço que é vendida, a marca inglesa vai conseguir afirmar-se à conta deste modelo.
De características aventureira, é uma soberba máquina de estrada e se tivesse alguma dúvida sobre as suas capacidades turísticas (e na verdade não o tinha), desvaneceram-se por completo nestes 500kms.
Apenas um pormenor a rever, a protecção aerodinâmica, manifestamente insuficiente para velocidades superiores a 80km/h. Disso são testemunhas as minhas costas.
O vidro de origem mesmo diminuto consegue redireccionar o vento à altura dos olhos. No entanto e dado o largo volante, os ombros vão expostos ao vento, e consequentemente daí a dor nas costas.
Não havendo as tradicionais pancadas no capacete, há uns quantos refluxos de ar na zona do peito, o que me fez descobrir uma série de novos ruídos desconhecidos no interior do capacete.
Claramente vou tratar de montar o vidro alto de duas peças da Givi, já o tinha na Strom e para além de ser prático, faz maravilhas.
Sobre os pneumáticos, tenho ainda de formar opinião. Estes Battlewing já os tinha na Strom e gostava deles. Em termos de dinâmica, as prestações são idênticas, não se negam a entrar na curva, nem um bocadinho.
No entanto, a roda traseira pareceu-me bastante suscetível à qualidade do piso. Logo quando a fui buscar, notei que dava de lado com facilidade, nas sinalização no pavimento, o qual atribuí a alguns resíduos de goma que pudesse ainda ter.
No regresso e depois de Nisa, apanhei um micro-cagaço, numa curva mais curta. Só me apercebi pelo espelho que tal tinha sido devido a alguma sujidade (terra/arreia) no piso que não tinha visto.
Os espelhos foram uma agradável surpresa. Estava habituado aos retrovisores tipo "caravana" que existem na Strom, grandes, largos e quadrados. Pareceu-me que os da Tiger, pequenos e estilizados não fossem grande coisa... Enganei-me.
Estão numa posição ideal, um pouco mais para fora das pontas do guiador, e oferecem uma visibilidade excelente. Até o espelho direito está óptimo, algo que nunca consegui acertar satisfatoriamente na Japonesa. Obrigam é a fazer um desvio com a cabeça, algo que não acontecia com a japonesa.
O banco é confortável, e diria que está bastante acima do banco de origem da Strom, mas ligeiramente aquém da opção conforto da Top-Sellerie. A espuma é alta e firme, mas ao fim de 300kms começam as dores no traseiro.
A posição de condução é excelente, ligeiramente mais desportiva que na Strom (mais debruçado sobre o volante, e peseiras ligeiramente recuadas), mas perfeita para devorar quilómetros, devo dizer que a dor nos joelhos apareceram-me muito mais tarde do que estava habituado.
Finalmente, a destacar... O roncar do motor.. Distinto e viciante, o som daquele turbocompressor virtual é deslumbrante e deixa-nos um constante sorriso nos lábios.
Não passa indiferente por onde vai, não sei se será pelo aspecto visual ou auditivo, acredito que seja este último que capta a atenção de alguma pessoas na rua.
Já só me faltam 250kms para a primeira revisão... E já imagino o rugir quando de lá sair com o Arrow, aí é que não vai passar desapercebida para ninguém.
É tudo, e já é muito... Espero que gostem do relato.
Cumps!