Dia 04, El Rocio - LisboaDepois de uma boa noite de chuva, acordámos nem tarde, nem cedo… E cum caneco, o tempo não estava melhor, e ameaçava ainda mais chuva!!!
Bem, vamos mas é despachar. O equipamento pendurado nas portas do roupeiro estava meio-seco e meio-molhado…
A camisola e as luvas do Barradas continuavam húmidas, e as mangas do meu casaco também. Antes de sairmos para o pequeno-almoço voltámos a aplicar o método de secagem do dia anterior, ar condicionado a 30ºC com a ventoinha a fundo!
O pequeno-almoço era servido na sala ampla junto à recepção. E foi o recepcionista do dia anterior que nos atendeu. Deu-nos a possibilidade de ficarmos no alpendre, mas optámos por ficar dentro do edifício, não estava dia para apanhar Sol.
Tostas e café, o habitual. Aviámos num quarto de hora o que se apresentou na mesa, e regressámos ao quarto onde por esta altura estava um braseiro. Vestimos o equipamento ainda com boas réstias de humidade (tal foi a molha!) e ajeitámos as motas no pátio interior, para carregar as malas.

Rota dos Pueblos Blancos (01-04NOV2012)

O Barradas optou por sair com a mota em mãos, e eu fui com ela mesmo a trabalhar…
Cá fora o dia estava como de véspera, piso húmido, céu sombrio a ameaçar chuva. Cheira-me que vem aí mais um dia cheio de água...
Saímos de El Rocio com calma para não nos baldarmos na areia logo pela manhã. Apanhámos a estrada de alcatrão e seguimos para Sul em direcção à costa. De caminho parámos numa estação de serviço para atestar e olear a corrente.
Continuámos pela costa até Huelva. Este troço é basicamente uma recta interminável que passa pelas várias praias da região, sem na verdade lá ir. Digo isto porque os acessos à costa são geralmente mato adentro ao estilo de corta-fogos. Assim a estrada segue ladeando mar à distância, o que não a torna particularmente bonita ou rica em cenário, a não ser, claro, que se aprecie de sobremaneira o pinheiro, que é o que há por aqui com fartura.
Fez-se bem, sem trânsito e nas calmas pela manhã, mesmo bom para o Barradas ir secando as luvas que seguiam penduradas nos espelhos…
Andámos assim uns 50 e tal quilómetros até chegar a Huelva, a cidade do morango. Entrámos pela zona portuária e contornámos a cidade por aí.
A esta distância, Huelva parece grande e suscita alguma curiosidade, mas não tínhamos tempo para visitá-la, e começava a chover… Lindo!
Uma paragem rápida para acertar o equipamento e siga debaixo de chuva em direcção a Norte.
O percurso de regresso que tínhamos planeado fazia-nos entrar em Portugal por onde tínhamos saído, Rosal de La Frontera. No entanto iríamos fazê-lo numa trajectória diferente da de há quatro dias, mais em vertical e portanto sem repassar pelo mesmo percurso. Havia um propósito nisto, cruzar o Rio Tinto e atravessar a região mineira a norte de Huelva. Um roteiro cénico que me ficou na retina quando aqui passei há uns meses atrás. Se não conhecem o Rio Tinto, aconselho-vos a fazerem uma pesquisa. Está classificado como um dos locais mais estranhos do planeta, e o seu nome deriva da sua principal característica, que é o facto das suas águas serem de um tom que varia entre o avermelhado e alaranjado. Como se não bastasse as suas águas são extremamente ácidas, com pH a rondar 2 valores.
E a razão para isto?... Desde sempre que aqui se extrai minério, cobre, ferro, prata e mesmo ouro. À semelhança do que sucedeu nas Minas de São Domingos (Mértola, Alentejo) o exercício destas actividades provoca graves impactos no meio envolvente, nomeadamente pela drenagem das minas que contamina as águas envolventes com metais pesados. Desta forma, é a concentração de ferro em níveis anormais nas águas do rio que lhe confere esta coloração estranha, e consequentemente o seu nome.
Saímos de Huelva por nacionais sempre rumando a Norte e sempre debaixo de chuva.

Rota dos Pueblos Blancos (01-04NOV2012)
Seguia à frente e às tantas começo a ver espanhóis no sentido contrário a bater máximos… Eh lá… Será polícia?!
Íamos no limite de velocidade, as condições do piso e tempo não permitiam mais que isso, portanto por aí não havia por onde pegar.
Mas qual quê, não era a polícia… Depois de uma curva a estrada fazia o efeito de um vale, e aí estava inundada… Bonito… Água por cima, água por baixo!
Aquilo é uma boa quantidade de água de suja do qual não se via o fundo… Afrouxei sem parar, e meti-me pela berma direita que parecia levar menos água.
Dei-lhe um bocadinho de gás e passou… O Barradas seguia atrás de mim, e disse-lhe para fazer o mesmo, atravessar pelo lado direito… Passou sem problema e lá fomos nós… Que máquinas do cacete estas Tigers!
Mais um pouco de nacionais e finalmente chegávamos à região de Rio Tinto, onde a vegetação se adensa.
Para passarmos junto ao rio teríamos de fazer um troço serra adentro. No acesso vimos logo a indicação de estrada cortada… Grande galo.
Assim mesmo resolvemos seguir a estrada para ver o que dava... Contornámos a barreira e seguimos… Mais meia dúzia de quilómetros e chegávamos ao ponto crítico.

Rota dos Pueblos Blancos (01-04NOV2012)
Rio Tinto à nossa esquerda e uma curva da estrada em obras na sequência de um desmoronamento. Neste momento estava em pé só meia faixa, o que era para nós perfeitamente realizável. Desmontámos das motos e fomos averiguar o estado da coisa. Do outro lado estava um jipe e um casal espanhol que andava por ali a tirar fotos. Vieram ao nosso encontro e o espanhol disse-nos que do outro lado estava um monte de entulho que iria dificultar a nossa passagem. Fomos lá ver e de facto não estava fácil. Os tipos tinham erigido uma barreira de terra e alcatrão moído. As únicas possibilidades seriam passar pelo lado exterior (já que à direita a valeta suja não o permitia) ou atacar o monte de frente e passar por cima dele. O casal veio ter connosco e ele com extrema simpatia, prontamente se ofereceu a ajudar.

Rota dos Pueblos Blancos (01-04NOV2012)
O Barradas tinha decidido experimentar a travessia de lado, pela berma. Eu estava com algum receio. Seria um metro de terra mole, que se afundava debaixo dos nossos pés, e para além disso uma ribanceira de 2 ou 3 metros... Sacámos as malas, e o Barradas trouxe a Tiger até junto à berma. Eu e o espanhol ficámos do lado fora para amparar. O Rui foi dando gás, devagarinho, e nós segurando a mota pelo exterior enquanto ele ficava com o pé esquerdo no ar… Ai, ui, ui, ai… E lá estava a Tiger do outro lado… Ufa… Falta a minha…
Comecei a mirar o monte, e a calcá-lo com uns pés num sítio e pareceu-me que era transponível. O espanhol também achou que sim e começou a juntar uns pedaços de pedra e alcatrão em forma de rampa… Vamos a isso, mesmo que encoste por baixo está lá a protecção de cárter para proteger.
Fui buscar a Tiger alinhei-a com o ponto de passagem, o Rui e o espanhol colocaram-se em cada lado para me amparar no caso de algum desequilíbrio.
Meti primeira, dei-lhe gás, sem toques e em 2 segundos estava do outro lado… Caramba, foi mesmo fácil… Que máquinas do cacete, mesmo!
Montámos as malas, agradecemos ao espanhol e demos-lhes o endereço da página do comando para ele depois ver a crónica.
Creio que a companheira dele tirou algumas fotos das passagens, mas eu não me dediquei muito a isso, estava com outras preocupações...
E vamos embora para casa!
A chuva a partir daqui e até Rosal, ia e vinha. O percurso é bastante agradável, uma estrada que serpenteia por meio de uma vegetação rasteira verdejante, e de quando em vez vamos vendo alguns cursos de água que correm com intensidade por esta altura. A estrada estava bem molhada, mas o traçado é simples e não muito exigente o que nos permitiu fazer todo o itinerário descontraídos, a velocidade moderada.
Finalmente chegávamos a Rosal, mesmo a tempo para fazer um último abastecimento com gasolina ainda a preço de “saldo”.
E vamos para Serpa que nos esperam umas migas à maneira na Adega Molhóbico!
E nisto começa a chuva novamente. Assim que entrámos em Portugal e até Serpa fomos brindados com um monumental banho de água, que é coisa que não faltou nestes últimos dois dias. Eu por esta altura ia lixado da vida. Tinha as mangas encharcadas até às axilas, e ainda para mais estava a começar a ficar frio...
Chuva e frio é uma mistura que deixa qualquer um mal disposto… E frio, efectivamente, não tivemos enquanto andámos por Espanha.
O que me safou foi pensar que só tinha de aguentar mais um pouco, para chegar a Serpa e mandar os beiços a umas migas quentinhas de porco preto!
Custou um bom bocado, mas lá chegámos a Serpa, a pingar. Água por dentro e por fora. Tive de tirar o forro térmico do casaco, que já estava encharcado, e vestir um polar.
Deixámos as motas estacionadas no parque de estacionamento e fomos à Adega. Sentámo-nos, pedimos e fomos barrando as fatias de pão com uma deliciosa banha polvilhada com algumas pedras de sal… Divino!

Rota dos Pueblos Blancos (01-04NOV2012)
Veio o prato principal que devorámos àvidamente. Não há que enganar, aqui é sempre bom! E mais a sobremesa, se faz favor!… Delicia!

Não demorámos muito, apenas o tempo necessário para satisfazer o nosso apetite. Pagámos a conta e fomos embora.
Parece que não havia mais chuva no horizonte. Não é que chover agora fizesse muita diferença (mais água, menos água), mas fazer o Alentejo por esta altura implica frio. E água e frio é talvez o mais desagradável para quem rola de mota.
Entrámos na A2 perto de Grândola, ligámos a velocidade de cruzeiro entre os 120 e 140 e seguimos assim até à 25 de Abril.
Já passada a ponte, uma paragem para a despedida final e devolução do segundo jogos de chaves, que tínhamos trocado para o caso de se perder o principal.
Mais uma excelente aventura com mais um rol de boas memórias. Valeram os dois primeiros dias de bom tempo que nos permitiram apreciar o melhor daquela zona.
Os dias seguinte podiam ter sido melhores, ou, pelo menos, menos “húmidos”, e teria-se feito a “coisa” com outro à vontade. Ainda assim pudemos apreciar um pouco de El Rocio e fazer uma passagem por aquela bonita região. Ficou mesmo a faltar uma saída pelo sul da Serra de Grazalema que fizemos no terceiro dia debaixo de um nevoeiro denso.
Mesmo assim, em relação às opções iniciais parece-me que não foi má escolha. A zona é fantástica para mototurismo e a temperatura nesta altura do ano é bastante amena. A opção de rumar para Norte teria-nos trazido água em menor quantidade, mas muito frio.
Uma palavra de apreço ao meu companheiro de estrada. Como é habitual, o Rui Barradas, que me vai acompanhando nas minhas loucuras e eu que o acompanho nas dele.
Depois de tantos quilómetros feitos juntos, só posso concluir que alinhamos muito bem na estrada e fora dela. Quer em ideias, maneira de ser, e expectativas que temos sempre destas viagens. Só isso justifica a vontade que temos em perpetuar estas aventuras, arrancar de madrugada e deixar tudo para trás durante uns dias… Viajar de moto tornou-se para mim uma necessidade básica para manter a sanidade mental… Não esquecendo que a sensação de arrancar para o desconhecido, para outras realidades em modo aventura é tão bom como a de regresso a casa…
Ah, e claro, pontuação máxima para as britânicas que em dois dias apanharam litradas de água e nunca se queixaram.
Comportamento cinco estrelas. Nem em condução na condições mais agrestes houve sustos ou percalços… Que máquinas do CACETE!!!
Fim.Cumps!